Mini-Biografia: O paulistano Toni Venturi viveu no Canadá de 1976 a 1984 onde se formou em cinema na RYERSON UNIVERSITY. Seu filme-TCC foi Under the table, um curta-metragem documental sobre os imigrantes ilegais latino-americanos, premiado no Canadian Student Film Festival.
De volta ao Brasil, passada a crise do governo Collor, Venturi funda a OLHAR IMAGINÁRIO e parte para o primeiro longa-metragem, o documentário O Velho, A História de Luiz Carlos Prestes (também em versão de quatro episódios para TV).
Depois produziu e dirigiu as ficções Latitude Zero, que recebeu 15 prêmios nacionais e internacionais, e Cabra-Cega, que arrematou 25 prêmios em festivais de cinema no Brasil. Em 2006, o cineasta volta ao documentário com a co-produção franco-brasileira Dia de Festa.
Além do cinema, Venturi produz programas de TV, publicidade e vídeos institucionais para grandes empresas através da sua produtora Olhar Imaginário (www.olharimaginario.com.br).
ENTREVISTA
Ademir: Olá, Toni. Primeiramente, gostaria de lhe dizer que é um prazer ter essa conversa com você, um dos maiores cineastas do Brasil.
Toni Venturi: Gentileza sua, há muitos melhores cineastas no Brasil, me considero um dedicado trabalhador do cinema que está a cada filme construindo uma obra com relevância social, cultural e humana para a sociedade.
Ademir: Poderia falar um pouco sobre o longa-metragem de ficção "Cabra-Cega"?
Toni Venturi: Quando revi o meu primeiro longa, o documentário “O Velho - A História de Luiz Carlos Prestes” (1997), senti que tinha sido superficial na abordagem da questão da luta armada e da resistência/utopia dos jovens que enfrentaram a ditadura. Resolvi mergulhar a fundo no assunto. Isto gerou o documentário “No Olho do Furacão” de 2003 e a ficção “Cabra-Cega” em 2005. Acho que são filmes que jogam luz nesta delicada questão e tratam com muito respeito o desprendimento de uma geração que sonhou um Brasil mais justo e igualitário. Sofreram muito com a repressão, muitos pagaram com suas vidas, mas acredito que o país deve a eles este ambiente de liberdade e processo político democrático que vivemos hoje.
Ademir: Acredito que assim como eu, milhares de brasileiros ficaram comovidos com a série de documentários institucionais, intitulado "Gente que Faz", patrocinado pelo Banco Bamerindus. Como surgiu a idéia desta série de documentários? Como era a pesquisa e como as pessoas e suas histórias foram selecionados? O que você aprendeu com "Gente que faz?
Toni Venturi: Fui diretor convidado da produtora responsável pela série junto com outros colegas, como Icaro Martins, Roberto Gervitz e Sérgio Toledo. Era um momento em que o cinema brasileiro estava paralisado por causa do desmanche da era Collor e fim da Embrafilme. Foi importante para nós porque viajamos muito pelo pais, entramos em contato com gente muito digna e empreendedora, realizamos um trabalho bonito que tocou as pessoas e sobrevivemos a esta época difícil.
Ademir: Criei um projeto de inclusão social em 2005, intitulado "Vá ao Cinema", destinado a levar pessoas de baixa-renda gratuitamente ao cinema. Percebi que a grande maioria destas pessoas, nunca tinham pisado em uma sala de exibição. No seu ponto de vista, o que falta para o brasileiro ter mais participação em eventos culturais, cinema, exposições de arte, museus, etc ?
Toni Venturi: O cinema, como fenômeno social e de entretenimento, mudou muito nas últimas décadas. De popular passou a ser uma atividade de lazer da classe media alta. Custa muito caro ir a um shopping e pegar um cinema. Infelizmente ir ao cinema hoje é privilégio dos jovens filhotes da elite brasileira. Portanto, sua iniciativa como muitas outras do mesmo gênero que pipocam por todo o país são muito importantes. Do ponto de vista da difusão, o cinema brasileiro só chegará a grande massa quando a televisão brasileira aberta passar a apresentar nossos filmes e deixar de colocar o lixo de todo o dia na telinha.
Ademir: Em geral, o que falta para o crescimento cinematográfico em nosso país? Está sendo fácil produzir filmes no Brasil?
Toni Venturi: Produzir filmes é difícil e caro em qualquer país do mundo. Estamos num momento de crescimento e construção. A Ancine (Agência Nacional Cinematográfica) está aos poucos tomando as rédeas do projeto estratégico e regulando a atividade audiovisual, uma nova geração criativa e mais ética está substituindo os velhos cardeais do setor, o mercado está se fortalecendo, enfim, lentamente, como o próprio país, estamos evoluindo. A dificuldade é a mesma que há décadas nos assola: a presença hegemônica e violenta do produto americano que ocupa nossas telas de forma imperialista e eficaz.
Ademir: Está trabalhando em novos projetos cinematográficos?
Toni Venturi: Sempre, não consigo parar, sou inquieto e tenho muitas idéias. Acabei de finalizar um documentário para a TV Escola sobre nosso grande pedagogo Paulo Freire, estou finalizando outro sobre a Rita Cadillac e me preparando para meu próximo longa de ficção que espero rodar em 2008 e que vai se chamar “Antes da Noite”.
Ademir: Mais uma vez lhe agradeço pela entrevista, desejo-lhe muito sucesso. É muito importante levar para as pessoas a realidade do mundo cinematográfico brasileiro.
Toni Venturi: Parabéns ao seu trabalho, são pessoas assim que fazem a diferença e mantém o sonho sempre vivo.
Por Ademir Pascale - Crítico de Cinema - ademir@cranik.com
Originalmente publicada no seguinte endereço:
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