A cineasta Lina Chamie, diretora do longa-metragem “Tônica Dominante”, trabalhou durante mais de 10 anos no departamento de cinema da New York University, em Nova Iorque onde se graduou e obteve seu mestrado.
Dirigiu vários vídeos e o premiado curta metragem “Eu Sei Que Você Sabe”.
“Tônica Dominante” é seu longa-metragem de estréia, que recebeu entre outros prêmios o Kodak Vision Award – WIF – Los Angeles; e o prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de Melhor Fotografia em 2001.
Atualmente finaliza seu segundo longa metragem “A Via Láctea”, uma história urbana pelas ruas engarrafadas de São Paulo no rush-hour. O filme é protagonizado por Marco Ricca e Alice Braga.
O roteiro de “A Via Láctea” foi premiado na Espanha em 2003 tendo participado do “Curso de Desarrollo de Proyectos Cinematográficos Iberoamericanos” em Madrid. Filmado no final de 2005, o primeiro corte de “A Via Láctea” acaba de receber o prêmio Casa de América no “Cine en Construccíon” no Festival Internacional de San Sebastían, Espanha 2006.
ENTREVISTA
Ademir: Primeiramente, gostaria de dizer que é um imenso prazer entrevistá-la e que a considero umas das melhores profissionais da área no Brasil.
Bom, para iniciarmos, gostaria de saber como foi o início de sua carreira e como surgiu a paixão pela sétima arte.
Lina: Fiz Universidade e Mestrado nos Estados Unidos onde morei por muitos anos em Nova Iorque, cidade ideal para cinéfilos. Ali, assistia a muitos e muitos filmes. Paralelamente trabalhei por mais de 10 anos no Departamento de Cinema da Universidade de Nova Iorque, onde eu estudava. Este foi o verdadeiro início da minha carreira.
Ademir: Por ter uma formação acadêmica musical, você acha que a música tem uma ligação com o cinema, surgindo o seu grande interesse pela sétima arte?
Lina: Acho sim, música e cinema acontecem no tempo e trabalham o ritmo, são similares.
Ademir: O trabalho no departamento de cinema da New York University foi gratificante para sua carreira?
Lina: Muito. Lá eu exercitei praticamente todas as funções cinematográficas, desde produção até montagem. Eu era “pau para toda obra” até projecionista de cinema eu fui!
Ademir: Poderia fazer um breve comentário sobre o seu longa-metragem "Tônica Dominante" e sobre o curta-metragem "Eu Sei Que Você Sabe"?
Lina: "Eu Sei Que Você Sabe" é um curta-metragem em homenagem ao poeta Manuel Bandeira. E "Tônica Dominante" é meu longa-metragem de estréia que de certa forma une meus dois amores: o cinema e a música.
Ademir: E como está o longa-metragem “A Via Láctea”?
Lina: “A Via Láctea” é meu segundo longa metragem e está em finalização. Trata-se de um filme de baixíssimo orçamento, rodado com 430 mil reais, num exercício amoroso de guerrilha cinematográfica e com o envolvimento inspirado de toda a equipe e elenco. Foi captado 80% em miniDV e 20% em película, Super 16mm e 35mm. “A Via Láctea” é protagonizado por Marco Ricca e Alice Braga. Foi filmado principalmente pelas ruas engarrafadas de São Paulo e aborda as possibilidades do amor, perda e morte em um grande centro urbano e seu contexto social. O filme já está montado em seu primeiro corte e precisa agora captar recursos financeiros para finalizar.
Ademir: Como foi o prêmio Casa de América do 54º Festival Internacional de Cinema de San Sebastían, com o filme "A Via Láctea"?
Lina: Maravilhoso, um reconhecimento internacional. O primeiro corte de “A Via Láctea” venceu o prêmio Casa de América no “Cine en Construccíon” no Festival de San Sebastían na Espanha. É bom explicar que o “Cine en Construccíon” é uma iniciativa de prestígio internacional que seleciona filmes promissores que ainda não estão finalizados. São 6 finalistas (dentre mais de 80 candidatos) que são apresentados para co-produtores, distribuidores, curadores de festivais, gente da indústria cinematográfica, etc. Trata-se de uma vitrine internacional para o filme. “A Via Láctea” foi apresentado e venceu o prêmio Casa de América que além de selo de qualidade representa antecipadamente um encaminhamento para a carreira internacional do filme. Um belo início! No entanto o filme precisa ainda ser finalizado, a batalha continua.
Ademir: Você acredita que existiu uma melhora no cinema nacional? Se sim, em quais quesitos?
Lina: Sim, significativa melhora, em todos os quesitos, desde quantidade, pluralidade, aspectos técnicos, qualidade de modo geral. Porém é preciso dizer que as dificuldades continuam, tanto para captação de recursos e produção, principalmente de projetos mais ousados ou independentes, bem como o problema da distribuição e exibição do cinema nacional que continua com enormes dificuldades em termos de ocupação do mercado e visibilidade.
Ademir: Todo mundo tem aquele filme especial, o único, aquele que sensibiliza e mexe com a gente. Qual é o seu filme?
Lina: “2001 uma odisséia no espaço” de Stanley Kubrick. Vi criança e foi a primeira vez que chorei de emoção.
Ademir: Para você, o que falta para o brasileiro de classe baixa, visitar mais os cinemas, museus e exposições? Incentivo? Informação? O que poderia ser melhorado?
Lina: Muita coisa. É um problema social e econômico. Falta tudo, poder aquisitivo, acessibilidade, incentivo, informação, educação. É uma questão que tem desdobramentos bem mais profundos.
Ademir: Tem algum novo projeto em vista? Se sim, qual?
Lina: Terminar “A Via Láctea”!
Ademir: Mais uma vez lhe agradeço pela grande simpatia e dedicação em seus belos trabalhos desenvolvidos.
Lina: Eu é que agradeço!
Por Ademir Pascale - Crítico de Cinema - ademir@cranik.com
Originalmente publicada no seguinte endereço:
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